O governo brasileiro criou uma ferramenta para monitorar, notificar e coagir apostadores compulsivos, tudo isso em nome de um “bem maior”. Pois é, meus amigos, a realidade distópica de 1984 é logo aqui.
Os vícios, de maneira geral, são um grande problema para a vida de muitas pessoas - e isso desde os primórdios da humanidade. Compras, substâncias, prazeres da carne - enfim, a lista daquilo que pode ser considerado um vício, ou seja, um hábito compulsivo que se torna destrutivo para a vida de um indivíduo, é virtualmente infinita. Nos últimos tempos, contudo, o Brasil tem vivido uma verdadeira epidemia da reinvenção de um tipo muito conhecido de vício: a jogatina, que agora foi potencializada através de plataformas digitais conhecidas como cassinos online.
É certo que o jogo já arruinou a vida de muita gente, ao longo dos séculos - e obras como O Morro dos Ventos Uivantes mostram isso de forma clara. Contudo, tal como podemos observar em relação a vários outros hábitos que podem se tornar vícios, o jogo em si não é necessariamente um problema. Indivíduos podem sim utilizá-lo de forma recreativa, como uma brincadeira, um passatempo, e depois voltar à sua vida normal de autocontrole e pé-no-chão. De qualquer forma, não podemos negar que, no Brasil, as bets e o tigrinho têm sim arruinado pessoas, famílias, empresas, casamentos, e dilapidado incontáveis patrimônios.
Aqui, vale fazer um alerta: apostar não é algo inteligente. Conforme já dito, o jogo pode sim ter um caráter recreativo, mas não passa disso. A chance de vitória, principalmente nos cassinos online, é simplesmente pífia. Nesse caso, a matemática joga contra você: no longo prazo, todos os jogadores perdem e a plataforma ganha, porque o cassino é um negócio como qualquer outro, e que precisa ser lucrativo. E se essas plataformas despejam rios de dinheiro para que inúmeros influenciadores divulguem esses produtos, é porque realmente rola muita grana - grana que sai das carteiras dos apostadores, naturalmente.
Dito isso, como libertário, preciso sempre reforçar o ponto de que cada um é livre para fazer suas próprias escolhas - e, é claro, para arcar com suas consequências. Quem sou eu para lhe dizer o que você deve fazer? A vida é sua. Não quero lhe controlar, apenas lhe aconselhar, dentro dos limites da liberdade. No fim, a escolha é sua, assim como o preço de lidar com suas inevitáveis consequências.
Até aí, tudo bem: certamente concordamos em todos estes pontos. Mas, como sempre acontece na vida do brasileiro, o estado está aí para violar as liberdades individuais e para nos lembrar do real motivo de sua existência - a saber, controlar a vida de cada um de nós. Em resumo, o estado é mesmo uma praga. E, no Brasil, temos uma manifestação ainda mais cruel dessa praga, e que atende pelo nome de Ministério da Saúde.
Saca só: o ministro da Saúde do governo Lula, o Sr. Alexandre Padilha, afirmou, recentemente, que seu governo criou um projeto para vigiar os jogadores ditos “compulsivos”. E sim, estamos falando de uma vigilância orwelliana mesmo, que fere qualquer tipo de privacidade que alguém ainda poderia, de forma bastante ingênua, acreditar ainda existir no Brasil.
A coisa vai funcionar da seguinte forma: o SUS - o tão amado pela esquerda Sistema Único de Saúde - terá acesso à frequência e ao volume com que os apostadores brasileiros gastam seus trocados em plataformas online de apostas. Bem, pelo menos naquelas que são regulamentadas pelo governo. Sim, é isso mesmo: o SUS vai saber (ou talvez até mesmo já saiba) quantas vezes, e qual valor, você apostou no tigrinho. Não sou um especialista no tema, mas, de acordo com a minha sensibilidade, isso se parece muito com uma grave invasão de privacidade…
Na verdade, esse sistema já existe, e já está até bem azeitado. Trata-se do Sigap - Sistema de Gestão de Apostas. Nesse sistema, as plataformas de apostas precisam registrar diversos dados relacionados a cada CPF, que permitem ao governo compilar informações, tais como: tempo de exposição online nas plataformas; quantas plataformas a pessoa utilizou; qual foi o valor da aposta; de quanto foi a perda da pessoa; por quantos dias no mês a pessoa apostou; dentre outros.
É claro que, como sempre acontece, o objetivo alegado pelo governo é bastante nobre. A ideia do Ministério da Saúde é enviar mensagens para o cidadão, através do aplicativo SUS Digital - e sim, isso existe - caso seja verificado um comportamento tido como abusivo. Será um alerta do tipo: “Cuidado com sua jogatina, rapaz!” Mas, obviamente, a coisa não para por aí. O estado não iria se contentar em apenas mandar mensagens inconvenientes para o pobre do cidadão brasileiro.
O ministro Padilha também afirmou que casos tidos como abusivos irão disparar notificações para que as estruturas de saúde pública perto da casa do apostador compulsivo também sejam acionadas. A partir desse momento, os agentes de saúde poderão bater na porta da casa do apostador - talvez, até para recomendar que ele procure um tratamento psicológico para se livrar dessa compulsão.
Para supostamente facilitar as coisas, o governo também vai disponibilizar uma ferramenta de telessaúde, na qual os viciados poderão receber aquele atendimento público, gratuito e de qualidade que nós bem conhecemos. Não sei o que você pensa a respeito dessa ideia… eu, particularmente, acredito que, no caso de um apostador compulsivo, o melhor mesmo seria se afastar das telas, e não se aproximar ainda mais, com um novo aplicativo…
Bem, agora que você já conhece esse novo programa do governo Lula, podemos conversar com sinceridade sobre o tema. Fala sério, vai me dizer que isso não parece coisa do livro 1984, de George Orwell? Basicamente, o governo brasileiro sabe o que você faz na internet, e como gasta seu dinheiro. Se ele achar que você está agindo de forma inconsequente, ele vai gentilmente lhe notificar. Se mesmo isso não der certo, agentes estatais gentilmente vão lhe oferecer auxílio médico - tudo, é claro, para o seu bem-estar.
Volto a dizer: tudo isso parece muito bem intencionado. Mas, e se amanhã a coisa for diferente? Talvez, você simplesmente não queira se tratar, após receber as gentis visitas dos agentes de saúde. Nesse caso, por que não? O governo poderia lhe obrigar a fazer isso, posto que sua privacidade já foi completamente violada. Afinal de contas, é tudo pelo seu bem! Se você não é capaz de saber o que é melhor para sua vida, o estado brasileiro é capaz de suprir essa sua necessidade, agindo como um verdadeiro pai - controlador, explorador, e que, ao que tudo indica, não está a fim de sair para comprar cigarros e nunca mais voltar.
Só que a coisa ainda pode piorar, porque bets e cassinos online não são o único hábito questionável do brasileiro. O governo pode, algum dia, simplesmente decidir combater os refrigerantes, os sorvetes e a batata frita - porque tudo isso, em excesso, faz mal para a saúde. Se, algum dia, você ingerir esses itens em grande quantidade, um camarada da saúde estatal poderá bater na sua porta, e indicar um procedimento melhor a se adotar. “O Grande Irmão não está satisfeito com suas práticas”, ele lhe dirá.
Isso poderia parecer algo distópico, se já não estivesse acontecendo. Naturalmente, alguém poderia dizer que do monitoramento das bets para o controle da batata frita, há um salto lógico e prático muito grande. Ok, isso pode até ser verdade hoje; mas, e amanhã, quando o real digital for realidade - e ele vai ser? Tudo o que for comprado e vendido pelos brasileiros vai ser documentado e avaliado em tempo real - não por seres humanos, mas por computadores. E, assim, cada um de nossos vícios mais particulares será exposto para o papai estado.
Mais do que nunca, seremos apenas números para o estado - sequências de 11 dígitos, informalmente conhecidas como CPF, e que são facilmente identificadas pelos computadores estatais. Dessa forma, o Leviatã saberá, sem problemas, o quanto gastamos, onde gastamos, com quem gastamos. E, se o estado não gostar de algo que temos feito com o nosso dinheiro - bem, nem preciso terminar essa história; você já entendeu aonde isso vai parar.
O vício no jogo, principalmente em tempos de apostas online, é sim um grande problema para a saúde dos indivíduos - incluindo, aqui, a saúde mental. Por causa da jogatina, pessoas têm perdido economias de toda uma vida, se tornando cada vez mais reféns de um vício que parece ser difícil de superar. Tudo isso é verdade e ninguém deveria comprometer sua própria vida com o jogo ou com qualquer outro tipo de hábito destrutivo. Contudo, mais destrutiva do que qualquer vício é a própria ação do estado.
Ao interferir de forma tão profunda em nossas vidas, monitorando até mesmo quais são os nossos comportamentos particulares, supostamente para nos defender de nós mesmos, o estado viola toda a privacidade que ainda nos resta. E ao destruir a nossa particularidade, o estado também compromete a nossa individualidade. Não somos mais pessoas, não somos mais indivíduos, somos apenas parte do mesmo rebanho controlado pela mão destrutiva do governo.
Só podemos nos dizer realmente livres se tivermos liberdade para tomar, inclusive, péssimas decisões, gastar mal o nosso dinheiro, entrar em relacionamentos ruins, arruinar a nossa própria vida. Liberdade pressupõe responsabilidade, e ninguém aqui está afirmando que qualquer comportamento, tomado de maneira livre, será bom para a nossa vida. Contudo, é sempre melhor errar sendo um homem livre, do que ser um escravo, obrigado a agir como manda o seu senhor - um cruel tirano que acredita estar acima do bem e do mal, de tudo e de todos, conhecedor da verdade suprema e perverso mantenedor do suposto bem maior.
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2025/dezembro/saude-e-fazenda-lancam-observatorio-brasil-saude-e-apostas-eletronicas-para-acoes-integradas-de-prevencao-a-dependencia