O Regime dos Aiatolás Não Está Só Perdendo o Controle, está em queda livre!

O Irã está em caos social e numa grande crise econômica. Quando até o passado turbulento parece melhor que o presente, é porque a coisa está feia para os que estão no poder.

Em Londres, diante da fachada discreta da embaixada iraniana, um gesto de segundos ecoou décadas de insatisfação. Um manifestante subiu à sacada do prédio, arrancou o tricolor verde, branco e vermelho da República Islâmica e, sob aplausos e gritos, ergueu no alto o estandarte do antigo regime monárquico, adornado pelo leão e pelo sol dourado. O episódio, ocorrido no sábado, 10 de janeiro, foi registrado por dezenas de câmeras e rapidamente correu o mundo. Esse não foi apenas um ato de protesto, mas um símbolo de rejeição profunda a um sistema que, aos olhos de muitos iranianos, se esgotou moral e politicamente. A cena, por mais breve que tenha sido, não surgiu do nada; ela aparece justamente em um dos momentos mais instáveis para o regime dos aiatolás.
Desde 28 de dezembro, o Irã vem sendo palco de uma onda de protestos que se espalha de norte a sul, de Teerã às cidades médias, dos bairros operários às universidades. O estopim foi econômico: a inflação disparada, o colapso do rial e a incapacidade de precificação que ameaça paralisar o comércio local. Há anos, a população vive entre a asfixia do autoritarismo e o desespero de uma economia em ruínas. O gesto em Londres foi apenas o reflexo visível de uma exaustão coletiva.
Na embaixada, manifestantes reivindicavam democracia e um Irã livre: “Democracia para o Irã, rei Reza Pahlavi” e “Justiça para o Irã”, citando Reza Pahlavi, herdeiro do xá deposto, que hoje vive exilado nos Estados Unidos. O ato monarquista foi a expressão simbólica de um país dividido entre o passado que foi destruído e o futuro que ainda não nasceu.
(Sugestão de Pausa)
A inflação ultrapassa 48,6%, a moeda nacional perde valor diariamente e os preços dos alimentos dobram a cada ida ao supermercado. A crise hídrica atinge milhões, e a sensação de paralisia é quase física. Até aqui, parece um filme já assistido, afinal, o Irã viveu diversos episódios semelhantes. No Ocidente, sempre acompanhávamos as notícias esperando pela queda do aiatolá — queda que nunca vinha, pois os protestos se dissipavam e as notícias deixavam de chegar. Então, o que garante que agora, assim como nas últimas vezes, tudo não terminará em pizza?
Parte da resposta está no fato de que uma parcela significativa dos manifestantes pertence a dois grupos sociais que, ironicamente, foram protagonistas de outra revolução: estudantes e comerciantes. Foram eles que, em 1979, ajudaram a derrubar a monarquia persa e abriram caminho para o regime que agora desafiam.
Antes da revolução que varreu o Irã em 1979, o país era irreconhecível para uma audiência moderna. Sob o xá Mohammad Reza Pahlavi — que, curiosamente, se assemelha fisicamente ao pastor Silas Malafaia —, Teerã era uma capital cosmopolita e ocidentalizada. As mulheres circulavam sem véu e sem restrições severas de vestimenta pelas avenidas. O Irã era o principal aliado dos Estados Unidos no Oriente Médio, um bastião de secularismo e modernização em uma região marcada por regimes religiosos e estruturas tribais.
Apesar das diferenças, há algo que não mudou no Irã desde então: o autoritarismo. O xá comandava um Estado centralizador e distante da realidade da população. O progresso concentrava-se nas elites urbanas, enquanto trabalhadores, camponeses e o bazar — os comerciantes tradicionais — viam-se à margem da sociedade.
(Sugestão de Pausa)
Essa distância entre o povo e o poder abriu espaço para um tipo de oposição que unia elementos improváveis: o clero xiita, os comerciantes e os estudantes. O clero oferecia o discurso moral, o bazar fornecia o dinheiro e a estrutura, e os estudantes davam a energia revolucionária. Foi essa aliança entre o antigo e o novo que desmoronou o trono do xá. A promessa da revolução era clara: justiça social, independência nacional e retorno aos valores espirituais. A população, cansada da corrupção e da desigualdade, abraçou a esperança.
O que veio depois, porém, foi a consolidação de um novo autoritarismo. A República Islâmica do Irã, baseada na retórica da pureza moral e da resistência ao Ocidente, rapidamente se isolou diplomaticamente. A Guerra Irã-Iraque, iniciada em 1980, foi usada como pretexto para a militarização do país e para a repressão da dissidência, consolidando o poder da nascente Guarda Revolucionária e das milícias Basij. O regime tornou-se, assim, um Estado híbrido: uma mistura de teocracia e milícia, sustentado pelo medo e pela repressão.
Ao longo das décadas seguintes, o Estado iraniano investiu pesadamente em sua política externa ideológica, hoje responsável por colocar o país nas manchetes ao lado de Israel e dos EUA. O Irã financiou grupos armados no Líbano, na Síria, no Iêmen e na Faixa de Gaza, consolidando sua imagem de potência islâmica antiocidental. Essa estratégia, contudo, teve um custo elevado, e alguém teria de pagar a conta. Recursos que poderiam ter sido destinados a hospitais, infraestrutura e educação foram drenados para sustentar guerras por procuração. O povo pagou, com estagnação e pobreza, o preço da obsessão ideológica dos aiatolás.
(Sugestão de Pausa)
Mesmo sob um regime autoritário, o povo iraniano nunca deixou de lutar por sua liberdade. A história recente do Irã é marcada por ondas sucessivas de protestos: o movimento estudantil de 1999, o “Movimento Verde” de 2009, as manifestações de 2017 e, mais recentemente, as de 2022, após a morte brutal de Mahsa Amini pela polícia da moralidade. Este último episódio foi particularmente traumático. Mahsa Amini, uma jovem de 22 anos, morreu por não usar o véu “corretamente”, sendo espancada até a morte por agentes da polícia moral.
Embora o regime tenha resistido e reprimido todas essas insurreições, o custo da repressão só tem aumentado. Os protestos de 2025–2026 parecem consolidar sinais de um regime em franca decadência — talvez próximo do fim.
Desta vez, a faísca partiu dos comerciantes. O colapso do rial e a inflação tornaram impossível precificar mercadorias, planejar vendas ou garantir o básico. O bazar, coração pulsante da vida urbana iraniana, entrou em colapso. É importante lembrar que o bazar não é apenas um mercado; na sociedade iraniana, ele é uma instituição social, um espaço de encontro, solidariedade e até de fé. Desde o século XIX, as guildas de comerciantes foram pilares de organização coletiva e resistência contra governos que ameaçavam seus negócios. Foram elas que forneceram a base econômica da Revolução Constitucional de 1905 contra a dinastia Qajar, dos protestos de 15 de Khordad, em 1963, e da revolução de 1979. A atuação do comércio foi fundamental em quase todos os movimentos políticos que surtiram algum efeito na história recente do Irã. Por meio de greves gerais, os comerciantes pressionaram o governo tanto econômica quanto socialmente.
(Sugestão de Pausa)
Além disso, os estudantes decidiram unir-se aos comerciantes — algo que não ocorria desde a queda do antigo regime. As universidades iranianas, como suas contrapartes ao redor do mundo, sempre foram viveiros de rebeldia. É, meu amigo, universitários não mudam muito, mesmo em outras partes do mundo. Em Teerã, Esfahan e Yazd, jovens de rostos descobertos entoam palavras de ordem por liberdade e direitos civis. Eles não pedem apenas soluções econômicas, mas uma reforma profunda no código de leis do país, garantindo liberdades civis básicas.
A combinação entre comerciantes e estudantes cria uma aliança poderosa, pois coalizões assim são fatais para regimes autoritários. Ditaduras conseguem reprimir grupos isolados, mas se desorientam quando diferentes classes sociais marcham lado a lado. Foram estudantes e comerciantes que ajudaram a instaurar a República Islâmica — e agora são eles que, novamente, saem às ruas para tentar superá-la.
A maior prova de que a situação atingiu um ponto crítico sem precedentes é o fato de o governo iraniano não recorrer imediatamente à repressão total. Diferentes setores do poder parecem divididos entre o instinto repressivo e tentativas de apaziguamento, por medo de colapso. Parte das autoridades fala em diálogo, reconhecendo a legitimidade das demandas populares. Ainda assim, é discutível se o regime conseguiria negociar de fato. O Irã não tem histórico de negociação em crises desse tipo; tradicionalmente, recorreu à violência direta. Mesmo que tente dialogar, o governo enfrenta dificuldades devido ao caráter descentralizado e difuso da liderança dos protestos, típico desse tipo de movimento social.
(Sugestão de Pausa)
A ala da linha-dura, ligada ao aparato religioso e militar, insiste na narrativa de sempre: culpar os Estados Unidos e Israel por supostamente manipularem os protestos. Essa dissonância interna é perigosa. Regimes autoritários sólidos costumam reagir com voz única; quando começam a divergir publicamente, é sinal de fissura.
É importante destacar também que, com esses protestos, o regime islâmico se vê cercado interna e externamente. Após a chamada “Guerra dos 12 Dias”, que resultou em ataques israelenses e americanos contra instalações nucleares iranianas, o país permanece em alerta. Israel destruiu parte das defesas aéreas de Teerã, expondo o despreparo da defesa antiaérea iraniana.
Nesse cenário, a República Islâmica atravessa a mais grave crise de sua história. Retornamos, então, à pergunta inicial: desta vez o regime dos aiatolás vai cair? A resposta é: sim e não. Sim, o regime está fadado ao fracasso e tem seus dias contados. Qualquer resquício de legitimidade que a brutal República Islâmica um dia teve dissolveu-se em corrupção, censura e miséria. A população vê um Estado que prioriza a guerra em detrimento do bem-estar de seus cidadãos, que constrói mísseis enquanto falta água e comida em milhões de lares.
Mas, se a pergunta for se o regime cairá em poucos meses, a resposta é não. O colapso de regimes autoritários raramente ocorre por um único fator, mas pelo acúmulo de crises internas. A estrutura repressiva ainda é densa, e o medo continua sendo um instrumento eficaz. O regime pode sobreviver por anos, mas sua trajetória de queda tornou-se irreversível.
(Sugestão de Pausa)
O gesto em Londres, em que a bandeira da monarquia substituiu a da República Islâmica, representa, para muitos, uma alternativa desejável. Isso não significa que os iranianos defendam o retorno do regime do xá nos moldes pré-1979. O próprio príncipe herdeiro defende uma monarquia parlamentar e constitucional, semelhante ao modelo britânico. Ainda que conte com apoio considerável, o retorno da monarquia — embora improvável — não seria, por si só, a solução definitiva. O Irã de hoje precisa de algo maior do que a simples troca de um regime por outro.
Esse povo milenar serviu, por gerações, a tiranos locais e estrangeiros. O verdadeiro antídoto para a superação definitiva da tirania não é o retorno de um rei, mas o questionamento radical do próprio Estado como forma de dominação.
O regime islâmico ainda pode durar cinco ou dez anos, mas, observando o mundo atual e suas transformações sociais e tecnológicas, fica claro que não é apenas o Irã que está fadado à queda. No fundo, o regime iraniano não é muito diferente de qualquer outra estrutura de poder que insiste em sobreviver além do seu tempo. Sustenta-se em dogmas antigos e na força das armas. Não é diferente de outros Estados, pois todo governo tem, como objetivo principal, controlar, manipular e subjugar seus cidadãos pagadores de impostos.

Referências:

https://exame.com/mundo/bandeira-da-monarquia-iraniana-e-hasteada-em-embaixada-em-londres/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Protestos_no_Ir%C3%A3_em_2025%E2%80%932026

https://explaininghistory.org/2025/09/03/1547/#introduction

https://pt.tradingeconomics.com/iran/inflation-cpi#:~:text=abril%20de%201958.-,A%20taxa%20de%20infla%C3%A7%C3%A3o%20no%20Ir%C3%A3%20aumentou%20para%2048%2C60,Economics%20e%20expectativas%20de%20analistas.