Quando era mais jovem, ouvia falar das grandes máfias e sua infiltração na sociedade. A máfia italiana era conhecida por seus negócios que aparentavam ser legítimos e seus grandes empresários que na verdade eram mafiosos. Já a Yakuza, máfia japonesa, além de não ser considerada ilegal pelo estado, atuava dando golpes em idosos. Por fim, os cartéis mexicanos são conhecidos por sua implacável violência contra qualquer um que cruzar o seu caminho. O que eu não sabia era que vivia em um país com uma máfia mais sofisticada que a italiana, mais golpista que a Yakuza e mais violenta que os cartéis.
Que nós vivemos em uma cleptocracia, ou seja, um governo formado por ladrões, todo brasileiro já sabe. Não basta a classe política viver de imposto, o que, por si só, já é roubo. Eles ainda fazem questão de desviar bilhões de reais, roubar idosos, roubar merenda de escola, roubar verba da saúde, superfaturar obras e fazer todo tipo de esquema possível que possa lhes beneficiar. Além disso, também vivemos em um narcoestado, pois membros do crime organizado estão infiltrados, desde a ralé, até o topo do funcionalismo público.
Muita gente já deve ter imaginado que tipos de crimes esses vagabundos precisam cometer todos os dias para se manter na posição em que estão. Mas, até então, todas as nossas desconfianças não passavam disso: meras desconfianças. Apesar de nunca termos duvidado do que políticos e empresários mancomunados com o Estado são capazes de fazer, não tínhamos como provar nada e, muitas vezes, éramos tidos como conspiradores ou malucos. Mas o caso Master fez questão de mostrar que tudo o que imaginávamos… estava errado. A coisa, na verdade, é muito, mas muito pior — muito mais escrachada, muito mais baixa e vil do que nossas mentes poderiam imaginar.
Na série Breaking Bad, o personagem Gustavo Fring é o dono de uma rede de restaurantes de fast food chamada Los Pollos Hermanos. Ele é um empresário muito respeitado na cidade, sendo um grande doador de fundos para o combate ao narcotráfico, e gozando da inteira confiança da polícia local. Mas apesar de toda sua aparência de homem bem sucedido e respeitado, Gustavo Fring leva uma vida dupla. Quando não está administrando sua rede de restaurantes, o empresário controla a maior operação de tráfico de drogas do sul dos Estados Unidos.
(Sugestão de Pausa)
Mas Gustavo não chegou e se manteve nesse patamar sozinho. Para manter sua posição e garantir que seu esquema funcionasse, Fring tinha uma milícia particular treinada pra distribuir seu produto, movimentar seu dinheiro e, principalmente, silenciar seus inimigos. O chefe dessa milícia era um ex-policial, aposentado, chamado Mike Ehrmantraut. Enquanto Gustavo era a cabeça do esquema criminoso, Ehrmantraut era o braço que tratava de fazer todo tipo de crime e aplicar toda violência necessária.
Esse tipo de história parece coisa de filme, de série policial. Mas a verdade é que, aqui no Brasil, a investigação do caso Master mostrou que a máfia tupiniquim faz ficções como Breaking Bad, O Poderoso Chefão e House of Cards parecerem brincadeira de criança. É importante entender que quando falamos da máfia brasileira, não estamos falando apenas de Vorcaro e seus juízes de estimação, mas sim de todo o aparato que se beneficia do estado pra roubar o nosso dinheiro. Nisso, podemos incluir o crime organizado, as milícias, os empresários amigos do rei, os políticos, juízes e toda sorte de funcionários públicos que usam o estado como arma.
Se Gustavo Fring tinha Mike Ehrmantraut como líder de seus capangas, Vorcaro tinha Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão. O “sicário”, como era conhecido Mourão, era o responsável por agir quando o suborno não era viável. Em resumo, quem incomodava Vorcaro, corria sérios riscos de ter seus dentes quebrados. Mourão já era um velho conhecido da polícia mineira, tendo sido indiciado por estelionato, furto de veículos, crime cibernético, associação criminosa entre vários outros crimes. Foi pra ele que Vorcaro mandou mensagens ameaçando ao menos 3 pessoas, dentre as quais se destaca o nome do jornalista Lauro Jardim do jornal O Globo.
(Sugestão de Pausa)
Agora pense comigo: se uma empresa correta visse a ficha criminal de Mourão, quais seriam as chances dele ser contratado? E, ainda pior, recebendo 1 milhão de reais por mês? Só isso já seria motivo suficiente para as autoridades caírem matando em cima de Vorcaro. Só que o problema nessa história é que as autoridades também estão envolvidas com a máfia. Os ministros do STF parecem estar atolados até o pescoço nesse lamaçal que é o Banco Master. Vorcaro manteve relações comerciais com ao menos dois ministros do STF: Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. E não estamos falando de uma relação pontual, de uma pequena compra de influência ou algo do tipo, mas sim de milhões, centenas de milhões de reais.
Pois bem, se isso que já nos foi revelado coloca em xeque a credibilidade de muita gente grande. Imagina o que tinha dentro da cabeça do capanga de Vorcaro, e que poderia vir à tona caso ele aceitasse algum acordo de delação premiada? Possivelmente saberíamos de coisas que não estão nas mensagens de Vorcaro; coisas muito mais cabeludas — ou carecas.
Saberíamos, porque a máfia brasileira é implacável. Por aqui, quem sabe demais costuma sofrer acidentes de avião, ser sequestrado, ser vítima de assalto ou se desviver. Luis Phillipi Mourão foi mais um desses que acabou se desvivendo, ao menos segundo a versão da Polícia Federal. Engraçado como um cara que faz tudo por dinheiro tem tão pouca vontade de viver.
(Sugestão de Pausa)
Bem, certamente a morte de Mourão beneficiou muita gente. Imaginem quantas barbaridades ele poderia revelar, quanta gente poderia rodar por causa dele, quantos ministros, políticos, policiais e pessoas importantes poderiam ser entregues às autoridades. Mas para a sorte deles, Luis Phillipi simplesmente decidiu ir jogar no Vasco. Que sorte a deles, não? Muita sorte na verdade… tanta sorte, que alguém um pouco mais desconfiado do que eu diria que foi uma queima de arquivo.
A pergunta que fica é: como alguém conseguiu eliminá-lo sob a custódia da Polícia Federal? A única resposta possível é que alguém de dentro da própria PF tinha interesse em dar um fim no Sicário. E, provavelmente, alguém em uma posição mais elevada de comando. Mas isso são apenas ilações, ao menos até vermos as tais imagens que mostram a suposta tentativa de Mourão de cancelar seu próprio CPF.
A Polícia Federal afirma que as imagens do ocorrido existem e que foram enviadas ao gabinete do ministro André Mendonça, atual relator do caso Master. O perigo é essas imagens simplesmente sumirem, como aconteceu com as imagens do 8 de janeiro. Se André Mendonça decidir realmente ir à fundo nesse caso, ele estará colocando a mão em um vespeiro. Não é à toa que o ministro passou a andar de colete à prova de balas após assumir a relatoria do caso. É meus caros, a máfia brasileira não é brincadeira.
(Sugestão de Pausa)
Mas digamos que as tais imagens se provem reais e mostrem o capanga de Vorcaro realmente tentando se desviver. Nesse caso podemos concluir que não se tratou de uma queima de arquivos, certo? Bem, na verdade ainda há uma possibilidade da ação de Mourão ter sido induzida. Como bem sabemos, essa gente é mafiosa, e nada impede que eles tenham ameaçado dar fim em algum familiar de Mourão caso ele não tentasse contra a própria existência.
Enfim, nunca saberemos. E aqui uso o termo “nunca”, porque no final da tarde do dia 6 de fevereiro, a defesa de Sicário confirmou sua morte encefálica no hospital. Até aquele momento ainda havia uma esperança dele se recuperar, mas parece que os interessados em sua morte tiveram sorte, mais uma vez. Ou será que alguém no hospital terminou o serviço?
Junto com o capanga de Vorcaro morre uma mina de ouro de informações que poderiam escancarar ainda mais a perversidade da máfia brasileira. O que a Polícia Federal tem que fazer agora é proteger Vorcaro como se ele fosse um diamante; manter guardas 24 horas por dia vigiando ele e instalar ainda mais câmeras em sua cela. Vai que, de repente, ele sente uma vontade incontrolável de se desviver. Acho que podemos até dar um nome pra isso: a “Síndrome do Sicário”, condição que pode levar à morte pessoas que, inconvenientemente, sabem demais.
https://oglobo.globo.com/blogs/malu-gaspar/post/2026/03/sicario-que-recebia-r-1-milhao-por-mes-de-vorcaro-tem-extensa-ficha-criminal.ghtml
https://pt.wikipedia.org/wiki/Yakuza
https://revistaoeste.com/politica/funcionario-de-vorcaro-recebia-r-1-milhao-por-mes/
https://veja.abril.com.br/politica/ministro-do-stf-passa-a-usar-colete-a-prova-de-balas-em-meio-ao-caso-master/
https://www.metropoles.com/brasil/defesa-informa-morte-de-sicario-o-espiao-de-vorcaro