Após 37 Anos de Operação no Brasil, o FedEx Deixará o País

O custo Brasil mais uma vez cobra seu preço; O FedEx irá sair do país, subtraindo competitividade e qualidade do mercado de entregas.

A FedEx anunciou que não prestará mais serviços de entrega a clientes e parceiros brasileiros. A decisão, segundo informações, visa a retirada completa da empresa do mercado nacional, e não apenas a suspensão dos serviços. Frederick W. Smith fundou a FedEx em Little Rock, Arkansas, após se formar na Universidade de Yale. Frederick montou todo o conceito da empresa em trabalhos acadêmicos na universidade, a concretizando após a sua formatura. A empresa expandiu-se durante a década de 1980, estreando no Brasil em 1989. Com lucros de US$ 5,5 bilhões, é atualmente a segunda maior companhia aérea do mundo, superada apenas pela Delta Airlines. Com uma frota de 650 aeronaves, 44.000 carros e 280.000 funcionários em todo o mundo, a FedEx consegue movimentar mais de 8 milhões de mercadorias por dia.

Mas apesar de seu tamanho, seu vultoso lucro e patrimônio, não foi capaz de manter-se no Brasil. Os 37 anos de operação foram encerrados graças ao famoso custo Brasil, que envolve custos decorrentes de taxação, burocracia e má infraestrutura que já forçou várias multinacionais para fora do mercado brasileiro.

O processo de encerramento não será abrupto, a empresa desenhou uma transição gradual, estimada em cerca de 30 dias, durante a qual seguirá operando parcialmente para garantir a continuidade mínima dos serviços. As coletas nacionais serão mantidas até o dia 6 de fevereiro de 2026, e todas as entregas já contratadas serão concluídas conforme os prazos previamente acordados.

A decisão foi comunicada oficialmente no dia 7, alcançando clientes, parceiros comerciais e o mercado em geral. Junto com o processo de reestruturação, vem o desligamento de equipes. A empresa ainda não divulgou o número exato de trabalhadores afetados, mas confirmou que parte das equipes será realocada, enquanto outras serão desligadas à medida que a estrutura nacional é desativada. Em outras palavras, milhares de trabalhadores serão demitidos e donos de pequenos negócios que auxiliavam a cadeia de suprimentos da FedEx poderão falir.

A FedEx informou que permanecerá no Brasil apenas com operações de transporte internacional, tanto aéreo quanto rodoviário, além de serviços de supply chain. Dentro desse pacote estão incluídos serviços como POS, as conhecidas máquinas de cartão de crédito, considerados estratégicos para a atuação da empresa no país. Segundo a própria companhia, a decisão é parte de um realinhamento estratégico global, com o objetivo de fortalecer a rede internacional e responder às dinâmicas do mercado.

Essa pode parecer uma notícia sobre um fato distante, sem muita aplicabilidade no dia a dia, afinal pobre não come encomenda. O erro desse tipo de pensamento está no fato de ignorar que a economia é um sistema interconectado. A retirada de uma empresa desse porte não é um evento isolado, ela reverbera, ecoa, espalha ondas pelo mercado.

No curto prazo, clientes corporativos e consumidores que dependiam do serviço doméstico precisarão buscar alternativas logísticas. O setor conta com outros players competitivos capazes de absorver parte dessa demanda, mas só isso não será capaz de conter os efeitos negativos da saída. Além das demissões diretas, várias outras empresas que prestavam serviços secundários, manutenção, tecnologia, transporte terceirizado, segurança, alimentação, correm o risco de reduzir drasticamente seu tamanho ou promover cortes. 

Uma pesquisa conduzida por Hanqiao Zhang, da University of California, analisa o encerramento de empresas estrangeiras no setor de manufatura eletrônica de Shenzhen, um dos maiores polos industriais do mundo. O foco é entender como a saída de uma empresa influencia a decisão de saída de outras empresas próximas.

A presença de empresas concentradas em uma mesma região gera externalidades positivas. Há compartilhamento de conhecimento, aprendizado coletivo, especialização produtiva, acesso facilitado a fornecedores e a um mercado de trabalho mais qualificado. Quando uma empresa sai, essas externalidades não desaparecem de imediato, mas começam a se deteriorar. A saída reduz a densidade empresarial e, com ela, enfraquece as economias de escala locais.

Empresas remanescentes passam a enfrentar custos mais altos de produção e operação. Serviços que antes eram baratos por volume perdem eficiência. Fornecedores que atendiam vários clientes passam a atender poucos, elevando preços ou encerrando atividades.

Quando firmas fornecedoras deixam o mercado, o acesso a insumos estratégicos se torna mais difícil e encontrar alternativas viáveis no curto prazo nem sempre é possível, especialmente em setores que dependem de padronização, confiabilidade e escala. Do outro lado, a saída de clientes importantes reduz a demanda regional, afetando diretamente a rentabilidade e a viabilidade econômica das empresas que permanecem. 

O impacto também atinge o mercado de trabalho, pois a perda de empresas enfraquece o pool de mão de obra especializada, fazendo com que profissionais experientes migrem, mudem de setor ou saiam da região. 

A saída de algumas firmas aumenta a probabilidade de novas saídas nas proximidades. Tarifas comerciais elevadas, por exemplo, levam empresas a abandonar regiões altamente especializadas, reduzindo os benefícios da especialização e comprometendo a competitividade regional. 

Há quem argumente que, no caso brasileiro, os Correios podem absorver parte dessa demanda, tornando-se o novo cliente ou parceiro de empresas que antes dependiam do serviço expresso privado. Em tese, isso pode ocorrer em alguns casos específicos, mas na prática, essa substituição tende a ser limitada. Nem todas as empresas conseguem operar com os prazos, a previsibilidade e o nível de serviço que eram oferecidos.

A eficiência operacional de uma empresa privada global como a FedEx, não é fruto de outra coisa senão do livre mercado e da competitividade que ele incentiva. O uso intensivo de tecnologia para rastreamento, roteirização e gestão de frota permite controle em tempo real, redução de desperdícios e tomada de decisão baseada em dados. Há padronização operacional, métricas rigorosas de desempenho e um foco obsessivo em prazos, previsibilidade e redução de custos. Tudo porque a competitividade faz com que empresas que não têm um alto nível de eficiência, simplesmente não ocupem a liderança do setor.

Do outro lado, a situação estrutural dos Correios é conhecida: Prejuízos recorrentes, produtividade baixa, rigidez administrativa e forte influência política na gestão. A empresa carrega a obrigação legal de manter um serviço universal, inclusive em regiões onde operar dá prejuízo contínuo. 

A diferença de incentivos entre uma empresa privada e uma estatal é central para entender o cenário, a FedEx está sujeita à disciplina do mercado. Se uma operação não se paga, ela fecha, simples assim. Os Correios, por sua vez, podem continuar operando com resultados negativos por longos períodos, amparados por garantias legais, crédito estatal e respaldo político, e isso altera completamente a lógica de decisão.

A presença de empresas privadas globais eleva os padrões de eficiência do setor. Elas forçam concorrentes a melhorar serviços, reduzir custos e inovar. Quando um player desse porte sai, o mercado é reorganizado. A demanda se redistribui, preços se ajustam, rotas são redefinidas, operadores menores ganham espaço. Esse é um processo normal em economias de mercado, embora nem sempre indolor. Mas quando o processo de saída é causado pelo estado, o mercado tende a se adequar de maneira mais lenta, já que uma saída motivada por custos estatais, e não por custos de mercado, é mais imprevisível. Assim o mercado fica com pouco tempo para se reorganizar de maneira preventiva, fazendo o setor patinar por mais tempo.

A saída da FedEx não elimina serviços logísticos do dia para a noite, mas reduz diversidade, concorrência e pressão competitiva. Em mercados menos disputados, a tendência é a acomodação. Menos investimento, menos inovação, mais tolerância à ineficiência, não porque alguém seja incompetente, mas porque os incentivos mudam.

A retirada da FedEx do mercado doméstico brasileiro não representa um fracasso da empresa. Trata-se de uma resposta racional a um cenário em que os custos passaram a superar o retorno esperado.

O alto custo logístico, infraestrutura desigual, complexidade tributária, insegurança jurídica e custos regulatórios elevados se tornaram muito onerosos até para uma das maiores multinacionais do mundo. Esses fatores pressionam as margens de lucro e afetam diretamente empresas privadas que não contam com proteção estatal. 

É por esse motivo que o libertarianismo ´rega a total liberdade de mercado. Se em um mundo de países altamente regulados, com um mercado que é qualquer coisa menos livre, ainda há empresas extremamente eficientes, que fazem estatais parecerem uma tartaruga com osteoporose, imagina como seria em uma sociedade de livre mercado? Não somos capazes nem de imaginar a evolução tecnológica, logística e econômica que isso causaria.
No fim das contas, o custo Brasil sempre chega. E quando chega, cobra caro. Não só das empresas que um dia decidiram investir nesse país, mas de todos nós que ficamos, pagando mais caro, esperando mais tempo e nos acostumando, pouco a pouco, a padrões mais baixos.

Referências:

https://g1.globo.com/economia/negocios/noticia/2026/01/08/fedex-encerramento-transporte-domestico-no-brasil.ghtml

https://en.wikipedia.org/wiki/FedEx#Foundation_and_early_history

https://pt.wikipedia.org/wiki/FedEx

https://arxiv.org/abs/2404.18009

https://www.seudinheiro.com/2026/empresas/apos-37-anos-no-brasil-concorrente-gringa-dos-correios-fecha-as-portas-e-demite-funcionarios-otrp/

https://reconectanews.com.br/saida-da-fedex-do-brasil-deve-influenciar-precos-e-volumes-no-setor-de-logistica/