Toffoli DEIXA RELATORIA do caso MASTER e ANDRÉ MENDONÇA é o NOVO RELATOR

O escândalo do Banco Master deixou de ser apenas sobre um banqueiro. Ao atingir o Supremo Tribunal Federal e forçar Dias Toffoli a sair da relatoria, revelou algo mais profundo: quando o sistema é ameaçado, ele se fecha para se proteger.

O caso Master chegou a um ponto tão absurdamente escrachado de promiscuidade, que ficou impossível esconder da população. Dias Toffoli saiu da relatoria do caso depois que a Polícia Federal encontrou conversas entre ele e Daniel Vorcaro no celular apreendido do banqueiro. Alexandre de Moraes aguarda um novo relatório da PF sobre seus próprios contatos com o mesmo esquema. E André Mendonça, sorteado como novo relator, herda uma investigação contaminada desde a origem. Enquanto isso, 25 pedidos de impeachment contra Toffoli acumulam poeira no Senado Federal, aguardando o improvável: que políticos julguem seus protetores.

Daniel Vorcaro, o banqueiro preso na Operação Compliance Zero, tinha no bolso mais do que um smartphone. Tinha um mapa completo da corrupção brasileira. Quando a Polícia Federal finalmente conseguiu quebrar a criptografia do aparelho, o conteúdo revelou uma rede de relacionamentos que faria inveja a qualquer organização criminosa — não que o estado não seja uma.

O relatório da PF, com cerca de 200 páginas, reuniu conversas diretas entre Vorcaro e o ministro Dias Toffoli, registros de ligações telefônicas, convites para festas de aniversário e, mais grave, menções a pagamentos atribuídos ao magistrado em conversas com terceiros. As transações envolvendo a família Toffoli no resort Tayayá teriam superado os R$ 6,5 milhões, segundo apurou a imprensa com base no material periciado.

A perícia localizou um histórico arquivado na nuvem que cobre os últimos cinco anos, demonstrando continuidade nas comunicações entre o magistrado e o banqueiro. Cinco anos. Tempo suficiente para construir um império de influência, para negociar proteção institucional e transformar um tribunal constitucional em escritório de advocacia privada.

O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, entregou pessoalmente o material ao presidente do STF, Edson Fachin, em 9 de fevereiro de 2026. Não entregou a Toffoli, o relator do caso, porque o próprio Toffoli estava citado nas evidências. É como encontrar o nome do delegado na agenda do traficante e ter que pedir ao secretário de segurança que avalie o que fazer.

Integrantes das investigações da Polícia Federal alertam que o material reunido no celular de Daniel Vorcaro tem potencial para, nas palavras deles, "resetar" a República. Já pararam pra pensar no tamanho da coisa que deve ser? Resetar. Palavra forte, usada por investigadores que já viram muita coisa absurda. 

A quebra da criptografia do iPhone 17 Pro Max de Vorcaro levou semanas. O aparelho tinha não apenas a proteção padrão da Apple, mas uma camada adicional de criptografia. A Polícia Federal precisou usar softwares especializados recentemente adquiridos, capazes não apenas de acessar conteúdos protegidos, mas também de recuperar dados que haviam sido deliberadamente apagados. Quando Vorcaro se recusou a fornecer a senha durante o depoimento, ele sabia exatamente o que estava protegendo.

Nas palavras do colunista Egídio Serpa, o celular de Vorcaro é um "arsenal atômico" comparável aos arquivos de Jeffrey Epstein.

E o que exatamente está nesse celular? Oficialmente, ainda não sabemos. Mas os vazamentos dão pistas aterrorizantes: conversas diretas com governadores, deputados, senadores, ministros de estado e membros do Judiciário. Menções a pagamentos. Coordenação de negócios envolvendo bancos públicos. Tentativas de interferir na liquidação do Master. E, segundo investigadores, conexões que atravessam governo, Centrão e oposição — ninguém está a salvo.

Se Vorcaro decidir fazer uma delação premiada — e ele tem todos os incentivos do mundo para fazê-lo —, talvez não sobre pedra sobre pedra. O banqueiro é um arquivo vivo. E agora, com seu celular decriptografado, nem que decidam desviver ele, as informações já estão nas mãos de muita gente.

Na quinta-feira, 12 de fevereiro, Fachin convocou uma reunião de emergência. Os dez ministros do STF se trancaram por três horas para discutir o que fazer com o relatório da PF. Alexandre de Moraes já adiantou que seu voto seria a favor de Toffoli continuar como relator e que achava um "absurdo" Andrei Rodrigues ter feito uma investigação sobre um ministro do STF sem ter autorização para tal. Vejam a lógica da cabeça desse careca: a polícia não pode investigar juízes sem autorização dos próprios juízes investigados. 

Dos ministros presentes, oito votaram a favor de Toffoli — Alexandre de Moraes, André Mendonça, Cristiano Zanin, Flávio Dino, Gilmar Mendes, Luiz Fux e Nunes Marques — e apenas dois contra: Cármen Lúcia e Edson Fachin. Mas havia um problema: a falta de unanimidade. E, mais importante, o problema político. A pressão externa era insustentável. Mesmo os ministros favoráveis a Toffoli sabiam que mantê-lo como relator seria indefensável perante a opinião pública.

A saída encontrada foi digna de um acordo de delação premiada: Toffoli "pediria" para deixar o caso, o STF emitiria uma nota conjunta declarando que ele não é suspeito e validando todos os atos que praticou, e o processo seria redistribuído. Todos se salvam. Toffoli sai sem ser declarado impedido. O STF não reconhece que errou ao permitir que ele relatasse o caso por meses. E a investigação continua — agora sob controle de outro ministro, igualmente imune a consequências.

O ministro André Mendonça foi sorteado como novo relator, após Toffoli e Fachin se excluírem do sorteio. Mendonça, vale lembrar, também é relator do inquérito sobre o esquema de descontos indevidos no INSS, que envolve Lulinha, filho do presidente Lula. É o ministro que acumula os casos politicamente mais explosivos do momento.

Se você pensou que Toffoli era o único ministro com problemas no caso Master, prepare-se para a segunda temporada. A Polícia Federal prepara um novo relatório, desta vez reunindo informações e diálogos apreendidos que citariam o ministro Alexandre de Moraes. A expectativa é que o documento seja encaminhado ao STF como parte do avanço das investigações.

Por que a PF ainda não entregou esse relatório? Simples. A avaliação interna é que, se o documento fosse encaminhado ao ministro Dias Toffoli — então relator do caso Master — haveria grande chance de arquivamento. Agora, com Toffoli fora e o caso nas mãos de Mendonça, o relatório sobre Moraes pode finalmente ser formalizado. Mas não espere milagres. Mendonça também assinou a nota de apoio a Toffoli.

Alexandre de Moraes esteve pelo menos duas vezes na mansão de Daniel Vorcaro, no Lago Sul, em Brasília. Em uma dessas ocasiões, conversou brevemente com o presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa. Na época, Vorcaro tentava viabilizar a venda do Master para o BRB. E, ao mesmo tempo, a mulher de Alexandre de Moraes, a advogada Viviane Barci de Moraes, mantinha um contrato de consultoria de R$ 129 milhões com o Banco Master.

Moraes negou ter participado de qualquer reunião de negócios. Negou ter pressionado o Banco Central. Negou, negou, negou. Mas as negativas soam ocas quando o contrato milionário da esposa está documentado, quando as visitas à mansão estão confirmadas, quando as coincidências se acumulam com a regularidade de um relógio suíço. E quando o mesmo ministro defende ardorosamente a permanência de Toffoli no caso, mesmo diante das evidências que o comprometem.

Nos últimos dias, Moraes teria se destacado como o principal defensor de Toffoli na Corte, mesmo diante do avanço das informações que teriam tornado a situação do colega insustentável. Na reunião reservada de ministros que discutiu o caso e culminou com o afastamento de Toffoli, Moraes teria sido o integrante que mais defendeu o colega. Por quê? Solidariedade? Amizade? Ou medo de que, se Toffoli cair, ele seja o próximo?

O ministro Dias Toffoli acumula 25 pedidos de impeachment no Senado. Três deles, de 2026, citam o Banco Master e aguardam despacho do presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Os mais recentes foram protocolados em 26 de janeiro, 3 de fevereiro e 6 de fevereiro. Todos permanecem sem análise. Sem parecer. Sem sequer numeração. É como se não existissem.

Os senadores Magno Malta e Eduardo Girão protocolaram um novo aditamento ao pedido de impeachment, acrescentando os fatos revelados pela PF com base no celular de Vorcaro. O documento sustenta que a Constituição atribui ao Senado a competência para processar e julgar ministros do STF por crimes de responsabilidade, e que, diante dos novos fatos, cabe à Casa avaliar o pedido para preservar a confiança pública, a separação de Poderes e a credibilidade da Corte.

Mas Alcolumbre não se manifesta. O impeachment de ministros do STF é previsto em lei desde 1950 e nunca ocorreu na história brasileira. Não porque nunca houve motivos, mas porque o Congresso Nacional tem medo do STF. E com certa razão.

Ministros do Supremo podem, com uma canetada monocrática, abrir inquéritos contra parlamentares, mandar prender aliados, bloquear redes sociais, suspender direitos políticos. O STF se transformou na arma mais temível da república. Nenhum senador quer ser o próximo alvo. Então eles preferem o silêncio cúmplice. Preferem arquivar pedidos e fingir que não veem o óbvio.

O senador Eduardo Girão afirmou que "dezenas de pedidos foram engavetados pelo presidente [Davi Alcolumbre], e no caso do Toffoli há uma robustez de material, como demonstraram as revelações do celular do Daniel Vorcaro".

A nota assinada pelos dez ministros do STF em 12 de fevereiro é uma obra-prima de cinismo jurídico. Eles declararam "não ser caso de cabimento para a arguição de suspeição" e reconheceram "a plena validade dos atos praticados pelo Ministro Dias Toffoli na relatoria".

Em outras palavras: Toffoli não é suspeito, mesmo com conversas com o investigado, mesmo com negócios milionários envolvendo sua família, mesmo com viagens em jatinhos de advogados da defesa. E todos os atos que ele praticou como relator — incluindo o sigilo máximo que impôs ao processo, a acareação forçada durante o recesso e as ordens para que a PF lacrassem provas — são válidos.

A nota ainda "expressa apoio pessoal ao Exmo. Min. Dias Toffoli, respeitando a dignidade de Sua Excelência, bem como a inexistência de suspeição ou de impedimento". Dignidade. A palavra que usam para descrever um ministro que recebeu milhões de um banqueiro fraudulento enquanto relatava o caso contra o mesmo banqueiro.

A nota é assinada por todos os dez ministros. Incluindo Alexandre de Moraes, que aguarda seu próprio relatório da PF. Incluindo André Mendonça, que agora assume um caso onde terá que julgar colegas de tribunal. Incluindo Gilmar Mendes, cujas próprias relações promíscuas com escritórios de advocacia já inspiraram o termo "Gilmarpalooza".

Daniel Vorcaro, o banqueiro, está preso (ou melhor, estava, antes de conseguir prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica). Mas os ministros que mantinham relações promíscuas com ele continuam em seus cargos, recebendo salários de R$ 41 mil mensais, com direito a auxílios de moradia, auxílios de combustível, e auxílios de quem-sabe-mais-o-quê. O Master quebrou. Mas a lição ficou: no Brasil, quem tem conexões no STF não precisa temer a lei. Porque a lei é o que os ministros dizem que é.

Toffoli saiu. Mas o sistema que permitiu Toffoli permanece intacto. E enquanto permanecer, novos Toffolis surgirão. Porque o problema não são os indivíduos. O problema é o monopólio. O problema é o poder sem limites. O problema é o estado.


Referências:

https://www.brasil247.com/brasil/alexandre-de-moraes-deve-ser-alvo-de-novo-relatorio-da-pf-sobre-o-caso-master
https://www.gazetadopovo.com.br/economia/pf-pede-suspeicao-de-toffoli-por-conversas-no-celular-de-vorcaro/
https://www.cnnbrasil.com.br/politica/mendonca-e-definido-como-relator-do-caso-master-no-stf/
https://www.metropoles.com/brasil/senado-tem-25-pedidos-de-impeachment-contra-o-ministro-dias-toffoli